O
filósofo Ortega y Gasset, em seu magistral livro "O Homem e os Outros", professa
que “o viver ou o ser vivo, que são a mesma coisa, o ser homem, não admite
preparação nem ensaio prévio. A vida nos é disparada à queima-roupa” e é
exatamente assim que vivemos, aprendendo no percorrer da vida, com erros e acertos.
Infelizmente isso não é espelho dos últimos 30 anos de políticas de segurança
pública no Brasil. Políticas baseadas em ideologias e cada vez mais distantes
do mundo real se sucederam e se repetiram em uma frequência irritantemente
constante. Os resultados todos nós podemos ver nas páginas dos jornais e no
chão pátrio, encharcado de sangue inocente dos mais de 60 mil assassinatos
ocorridos apenas em 2016.
Durante
20 anos atuando e estudando questões ligadas à segurança, não foram poucas as
vezes em que fui tomado de profundo desânimo quando me confrontava com o
recorrente “mais do mesmo” de nossa classe política – ou, pelo menos, da maior
parte dela. Uma bolha aparentemente intransponível se instalara na ilha da
fantasia também conhecida como Congresso Nacional. Mas eis que nesta semana, ao
que parece, a bolha rachou! Um forte golpe foi desferido na Comissão de
Constituição e Justiça do Senado, que aprovou em sua íntegra um relatório
apresentado pelo senador Wilder Morais (PP-GO). Entre os pontos principais
estão as sugestões do fim do Estatuto do Desarmamento, guerra às facções
criminosas e “militarização” das nossas fronteiras.
Para
alguns céticos, isso poderia parecer pouca coisa, ou até mesmo uma obviedade –
mas não é. As propostas apresentadas definitivamente mostram que o mundo real
chegou aos nossos senadores, e só isso já seria motivo mais que suficiente para
longas comemorações. Trata-se do abandono de ideologias impraticáveis e
utópicas em favor de políticas racionais e comprovadamente eficientes para
redução da criminalidade. Claro que os velhos “papas” da “segurança pública de
faz-de-conta” torceram o nariz, bem como boa parte da imprensa. Em compensação,
as pessoas que vivem neste mundo aplaudiram.
Por
falar em vontade popular, a construção de Brasília na imensidão do Planalto
Central, todos sabemos, foi pensada exatamente para afastar a política nacional
daquela coisinha insignificante chamada povo. A estratégia funcionou durante
décadas, mas desapareceu com a chegada da internet e das mídias sociais. Prova
disso é que dois projetos considerados absurdos por quem entende minimamente do
assunto foram implodidos após forte pressão virtual. O projeto que
criminalizava o porte de facas e o que inutilizava armas de coleção foram
retirados de tramitação pelos seus autores após milhares de pessoas enviarem os
seus “elogios” aos congressistas responsáveis.
Contentar-se
com a utopia, com um mundo tão ideal quando inexistente, com a violência
vencida pela camiseta branca ou passeatas pela paz, com a ilusão do criminoso
que magicamente se redime ante um abraço carinhoso, é uma ideia sedutora para
muitos, não para mim. Fico, modestamente, ao lado de Machado de Assis, que
afirmava: “É melhor, muito melhor, contentar-se com a realidade; se ela não é
tão brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir”.
Bene Barbosa
é presidente do Movimento Viva Brasil, estudioso em Segurança Pública e coautor
de “Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento”.
Fonte: Gazeta
do Povo

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